Camera Mundo - Independent Film Festival - Edition Brasil

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“Alle grenzen hebben twee kanten”

eduardo countinhoEduardo Coutinho wordt gezien als één van de belangrijkste Braziliaanse documentaire makers van deze tijd. Hij begon zijn loopbaan als scenarioschrijver en regisseur van fictiefilms. Met elf lange en diverse korte documentaires op zijn naam, creëerde Coutinho een eigen stijl, één die door velen aan zijn naam wordt gekoppeld en reeds erkend in de filmwereld. “De documentaire is en zal altijd onafhankelijk blijven, omdat het een manier van filmen is die nooit uit commerciële middelen betaald zal worden. De documentaire zal altijd afhankelijk zijn van publieke middelen”, verklaart de regisseur.

Coutinho kreeg affiniteit met het maken van documentaires in 1975 via de journalistiek, toen hij werkte voor het wekelijkse tv programma Globo Reporter, dat lange rapportages maakte. Pas in 1984 verliet Coutinho de televisie om zijn eerste documentaire te maken. "Cabra Marcado para Morrer", zijn eerste en meest bekende documentaire, waarvan de opnamens al twee decennia eerder waren gemaakt, werd destijds door de militaire dictatuur gecensureerd. "Ik zette mijn carrière als documentairemaker toen stop en besloot na meer dan tien jaar de documentaire nieuw leven in te blazen, ik móest hem afmaken. Als het niet om die film was geweest,  was ik nooit meer begonnen met het maken van documentaires”.

Coutinho heeft zich gespecialiseerd in het maken van steeds meer hybride documentaires, die realistische en surrealistische beelden elkaar doen afwisselen. Vooral in zijn twee laatste films “Joga de Cena" en "Moscou" lijkt de regisseur steeds dichter bij fictiefilm te komen. "Vandaag de dag wordt steeds vaker weergegeven wat vroeger in films achter de schermen plaatsvond”, aldus Coutinho. De nadruk leggend op dit fenomeen, maakt de regisseur gebruik van de metataal. Zo duiken er in sommige scènes materialen op waarmee de documentaire is opgenomen. "Het heeft geen zin om de waarheid van leugens en het denkbeeldige van het echte  te scheiden. Alle grenzen hebben twee kanten", aldus Eduardo Coutinho.

Tekst: Mônica Pupo

“Preciso filmar para Viver”

Em entrevista exclusiva ao site Câmera Mundo, Eduardo Coutinho fala sobre o desafio de fazer cinema no Brasil e comenta alguns de seus principais filmes.
 
Considerado um dos maiores documentaristas brasileiros em atividade, Eduardo Coutinho começou sua trajetória no cinema como roteirista e diretor de filmes de ficção. Com onze longas-metragens - e diversos curtas - no currículo, Coutinho criou um estilo único de filmar  e se tornou uma referência em cinema documental.

"O documentário foi, é e será marginal, porque é um cinema que não se paga nunca, que depende de recursos públicos", reflete o diretor.

O vínculo com o documentário surgiu em 1975 através do jornalismo, quando passou a trabalhar no Globo Repórter - programa semanal de televisão com foco em grandes reportagens. Mas apenas em 1984 é que Coutinho inicia a trajetória como documentarista. É desta época o lançamento de "Cabra Marcado para Morrer" - cujas filmagens, iniciadas duas décadas antes, foram censuradas pela ditadura militar. "Eu larguei o cinema por quase dez anos e voltei para fazer o "Cabra", eu tinha que acabar aquele filme fantasma. Se não fosse por isso eu não voltaria", conta.

Coutinho tem se especializado em criar obras cada vez mais híbridas, que colocam em xeque as idéias de objetividade e representação. Especialmente nos dois últimos filmes - "Jogo de Cena" e "Moscou" - o cineasta parece aproximar-se cada vez mais da ficção. "Hoje está ficando mais evidente o que nos outros filmes era obscuro", diz. Para reforçar essa reflexão, o cineasta faz uso da metalinguagem. Em vários momentos são expostos os mecanismos de realização do filme, evidenciado a representação e a construção das cenas. "Não há como separar verdade e mentira, real e imaginário. Todos os limites são absolutamente ambíguos". A seguir, Coutinho fala sobre o cinema independente no Brasil e comenta alguns de seus filmes que serão destaque na retrospectiva que acontece durante o Câmera Mundo - 2o Festival de Filmes Independentes.
 
Qual sua opinião sobre o cinema independente brasileiro?
Essa discussão é complexa. Ninguém é totalmente independente. Os americanos, por exemplo, aplicam esse conceito de forma diferente. Na verdade, de certa forma todo o cinema produzido na periferia - no caso, na América Latina e em países emergentes - é independente. É lógico que sempre tem o cinema clássico, que busca o grande público. Já o documentário é o cinema que corre na outra raia, ele é por nascença independente, porque é um cinema que não se paga nunca, que tem que ser feito com recursos públicos. E, no fim das contas, o que existe para o grande público é o cinema de ficção. O documentário foi, é e será marginal. O documentário é feito para um público de 10 a 20 mil pessoas que pode chegar a 50, 100 mil pessoas por acaso, mas é um filme que tem um sistema diferente do sistema de ficção. Eu não faço filme para televisão, não faço mais grade. Eu faço o filme que eu quero fazer, que eu posso fazer e que me interessa fazer, sem me preocupar em retorno de espécie alguma, a não ser das pessoas que vêem documentário e da crítica.
 
 
Se levarmos em conta o filme "Jogo de Cena", qual a diferença entre um depoimento e a interpretação deste mesmo depoimento? Quais os limites entre realidade e ficção?
Todos os limites são absolutamente ambíguos e tênues. O filme [Jogo de Cena] é feito para mostrar isso. Eu tenho uma atriz mas, para fazer o papel de uma pessoa real, ela emprega os recursos de atriz, mas num certo momento ela também se envolve com o personagem, porque além de atriz ela é uma pessoa. O grande mérito do filme é colocar isso na prática, um sistema muito simples de representação e que, de repente, o espectador já não sabe mais quem contou aquela história. A conclusão fi é a seguinte: ninguém é dono de sua história.  
 
Vários de seus filmes retratam pessoas pertencentes às classes excluídas - moradores de favela, do lixo, etc. Por que a opção pelos "anônimos"?
Eu filmo aquilo que está longe de mim, o outro. O outro de mim, por acaso e inclusive, é o outro social. Eu não filmo, por exemplo, com especialistas ou celebridades, porque eles não têm nada a me dizer, tem muito a perder. Eu também não vou fazer um filme sobre os cineastas, é um grande tema, falar sobre como vivem os cineastas, mas aí não é falar do outro. O outro de mim é aquele que não sou eu. Os pobres acabaram me interessando mais até pelo fato de que são maioria. O que pensa, quais as razões e anseios de um catador de lixo? É neste sentido que me interessa o outro. Eu não faço filmes autobiográficos. Faço filmes sobre o outro e que acabam sendo autobiográficos porque, ao falar do outro, você acaba revelando muito de si mesmo. O que me interessa na hora de fazer um filme é o princípio da incerteza. Eu nunca sei se o filme vai dar certo ou vai ser um fracasso. No dia em que eu tiver essa certeza eu largo o cinema.
 
Qual a importância histórica de "Cabra Marcado para Morrer"?
É curioso dizer isso. Eu larguei o cinema por quase 10 anos e voltei para fazer o "Cabra", se não fosse isso eu não voltaria. Então, ao mesmo tempo em que é um filme extremamente pessoal, porque só eu poderia fazê-lo, o tempo passou e hoje eu posso falar na terceira pessoa. Eu acho que o "Cabra" é um filme extraordinário que registra o tempo. Se você comparar com todos os filmes políticos da década de 1960 na América Latina, na minha opinião o "Cabra" resiste muito mais que todos. Dos outros filmes eu não comento nada, mas não tenho a menor modéstia em falar do "Cabra".
 
Considerando-se "Jogo de Cena" e "Moscou", é possível dizer que seu cinema está se aproximando da ficção?
Isso tem até uma certa lógica. Hoje está ficando mais evidente o que nos outros filmes era mais obscuro. Não há como separar verdade e mentira, real e imaginário. Toda história narrada é ao mesmo tempo verdadeira, mentirosa e várias outras coisas, porque nenhuma coisa é isso, preto e branco. Tudo é  isso e aquilo e aquilo, é preto e branco ao mesmo tempo. Não há nunca um limite definido.
  
O que é mais difícil para um cineasta brasileiro: produzir ou distribuir?
Distribuir é uma coisa dificílima, depende de um circuito comercial. Produzir está cada vez mais fácil, com a tecnologia digital.
 
Você está trabalhando em algum filme no momento?
Não estou produzindo nada agora. Ainda preciso inventar o próximo filme, que será igual e diferente dos outros. Só sei que preciso filmar para viver e viver para filmar. 

tekst door: Mônica Pupo